Movimentos sociais e possibilidade de transformação social: discussões com alunos do ensino médio
Ciências Sociais – CPNV
SOUZA, A. P.[1]
FREITAS, E. S.[2]
VITAL, C. F. [3]
LOPES, D. H.[4]
Palavras-chave: PIBID; Ensino de Sociologia; Movimentos Sociais.
Introdução
Este texto tem por objetivo apresentar práticas pedagógicas em aulas de Sociologia, desenvolvidas por bolsistas do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) do curso de Licenciatura em Ciências Sociais da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Câmpus de Naviraí (CPNV). A proposta foi realizada no terceiro bimestre, em nove aulas, com turmas dos segundos anos do ensino médio da Escola Estadual Presidente Médici, em Naviraí/MS.
O tema desenvolvido foi o conceito de movimentos sociais. Na prática de sala de aula, além da apresentação da metodologia aplicada, procuramos discutir a importância dos movimentos, bem como a maneira que se estabeleceram nas conjunturas históricas, mas levando em conta a realidade dos alunos.
Estruturada a partir da análise cotidiana e com base em discussões teóricas realizadas ao longo dos encontros desenvolvidos pelo PIBID, apresentamos uma dinâmica na qual debatemos sobre a ineficiência do Estado Moderno na divisão de direitos.
Por meio de uma abordagem sociológica específica, fora debatido: as minorias e suas lutas por direitos; os papéis sociais de gênero; os movimentos contra o racismo e a discriminação cultural; a questão agrária no estado de Mato Grosso do Sul e seus desdobramentos.
Referencial teórico
Segundo Vygotsky, o aprendizado ocorre quando as informações fazem sentido para os indivíduos inseridos em um dado contexto social, com isso é necessário relacionar o conteúdo com o cotidiano dos alunos, assim ocorrendo uma assimilação, ajudando no entendimento dos conceitos (GOHN, 2011).
Na elaboração da sequência, procuramos sempre aproximar o conteúdo com o contexto social do estudantes para assim ocorrer a assimilação do tema proposto. No caso dos movimentos sociais é importante buscar exemplos do cotidiano dos alunos, pois a temática está inserida na realidade social de muitos.
Para Maria Gohn (2011, p. 336),
Os movimentos realizam diagnósticos sobre a realidade social, constroem propostas. Atuando em redes, constroem ações coletivas que agem como resistência à exclusão e lutam pela inclusão social. Constituem e desenvolvem o chamado empowerment de atores da sociedade civil organizada à medida que criam sujeitos sociais para essa atuação em rede.
Desta forma, para construir a sequência didática em tela, utilizamos alguns pressupostos teóricos para embasar a proposta, principalmente o livro “Sociologia para o Ensino Médio”, de Nelson Dacio Tomazi (2007), além de outros teóricos da área como Silva et al (2013), com o livro “Sociologia em Movimento”, que é o livro usado pela escola e disponibilizado para os estudantes.
Segundo Fraga e Lage (2003, p. 206) “Pensar sociologicamente é procurar eleger o social como esfera privilegiada de explicação da realidade, é buscar a compreensão científica dos fenômenos sociais. Nesse esforço, criam-se articulações entre as vidas individual e coletiva, de forma a perceber as pessoas como fortemente influenciadas por forças sociais e históricas.”
Segundo os autores, “para alcançar um processo de ensino-aprendizagem mais favorável, é preciso evitar um caráter enciclopédico e lembrar que o intuito não é formar sociólogos no Ensino Médio, mas permitir que os alunos tenham contato com a maneira constituída pela Sociologia para conceber a sociedade” (FRAGA e LAGE, 2003, p.206).
O objetivo da atividade em questão, não foi o de formar sociólogos, mas despertar um olhar crítico nos alunos, causar a desnaturalização da temática.
[…]um papel central que o pensamento sociológico realiza é a desnaturalização das explicações dos fenômenos sociais. Há uma tendência sempre recorrente de se explicarem as relações sociais, as instituições sociais, os modos de vida, as ações humanas, coletivas ou individuais, a estrutura social, a organização política com argumentos naturalizadores. Primeiro, perde-se de vista a historicidade desses fenômenos, isto é, que nem sempre foram assim; segundo, que certas mudanças ou continuidades históricas decorrem de decisões, e essas, de interesses, ou seja, de razões objetivas e humanas, não sendo fruto de tendências naturais (BRASIL, 2006, p.105-106)
Para tanto, a pesquisa é uma forma de aguçar o senso crítico e incentivar o pensar sociologicamente e que deve ser amplamente utilizada em sala de aula. De acordo com Fraga e Lage (2003, p. 207):
A pesquisa é apontada nas OCEM como complementar a esses três tipos de recortes no ensino de Sociologia. Ela pode ser realizada depois que os conceitos, temas e teorias forem apresentados, possibilitando a verificação do que foi debatido em sala de aula, ou antes que isso ocorra, valendo-se dos resultados para dar início à apresentação desses três recortes.
Foi com base nessas perspectivas teórico-metodológicas que preparamos as aulas da sequência didática, sempre pensando em aproximar o conteúdo com a realidade dos alunos, bem como torná-los pesquisadores, a fim de desenvolver a construção do conhecimento.
Justificativa da atividade proposta
O método dialógico apresentado por Paulo Freire (1986), indica que a conquista da liberdade na construção do conhecimento se dá por intermédio essencial da relação entre educador e educando, transformando essa dialética numa forma revolucionária de aprendizado. Sendo assim, por meio do diálogo pautado a partir da realidade dos educandos, é possível construir aulas mais dinâmicas, atraindo a atenção e o interesse dos alunos para melhor compreensão dos conteúdos.
O ensino de Sociologia cada vez mais vem buscando novas estratégias para assim desenvolver uma aprendizagem de qualidade, com o intuito de atender os elementos fundamentais estipulados pelas diretrizes curriculares estabelecidas pela disciplina. Desse modo, cabe ao educador, como profissional da educação, identificar essas transformações e construir elementos que possam contribuir para melhorar as formas de ensinar e aprender as questões sociológicas.
A presente sequência didática se torna relevante no sentido de criar novos elementos para consolidar o elo entre educandos e educador.
Os movimentos sociais são resultantes da práxis social, sobretudo pelos desdobramentos da sociedade industrial e das lutas operárias. Lutas unidimensionais de caráter reivindicatório, identitários ou moral. No entanto, acerca deles há diversos posicionamentos parciais adivindos do senso comum. Nesse sentido, cabe ao professor de Sociologia lapidar as noções básicas dos educandos sobre os fenômenos sociais, desnaturalizando e levando ao estranhamento de determinada realidade social. O olhar sociológico rompe com o conhecimento simplista e avança na emancipação do conhecimento crítico do estudante.
Descrição da atividade desenvolvida
Na sequência didática “Movimentos Sociais”, foram utilizadas algumas ferramentas pedagógicas, como: música, documentários, slides, textos, lousa, bombons para a dinâmica, dentre outros, com o intuito de tentar proporcionar aos alunos um olhar reflexivo para as problemáticas acerca do conteúdo.
A proposta se pautou na perspectiva de resgatar e levar ao estranhamento e desnaturalização dos conhecimentos adquiridos pelos alunos dos segundos anos do ensino médio, no que se refere a ideias e conceitos a respeito dos movimentos sociais e também o contexto em que esses movimentos se estabelecem em um decorrer histórico. Por meio de aulas interativas e participativas, pretendeu que os alunos percebessem que é possível estudar e relacionar os movimentos em diversos aspectos.
Deste modo, a sequência foi estruturada e distribuída em nove aulas, pensadas de forma a complementar umas às outras.
A primeira aula, foi com a música “Até Quando”, do cantor brasileiro Gabriel O Pensador, com som e vídeo com imagens e a letra da música. No início do desenvolvimento da atividade, os alunos estavam dispersos e distraídos. Porém, ao conversamos com eles sobre músicas com letras de contestação social, muitos perceberam que tinham algo a dizer e passaram a participar significativamente da aula. A partir daí, ampliamos os debates com perguntas, buscando identificar qual o conhecimento prévio dos alunos a respeito do conteúdo que iríamos debater nas aulas.
Neste momento, os alunos já iniciaram uma participação mais ativa e interessada, o que não é muito comum em outras aulas, deixando-os mais instigados à medida que foram surgindo reflexões. Para finalizar a aula, aplicamos um questionário no qual os alunos tinham que escrever: o que entenderam da música; se já tiveram contato com movimentos sociais; o que eles achavam dos movimentos; dentre outras.
Na segunda aula houve uma breve introdução relembrando a anterior. Os alunos arrumaram as carteiras em círculo para uma dinâmica. Foram distribuídos bombons, em quantidade aleatória e desigual entre os estudantes na sala, com descrições de que cada um representava os direitos básicos dos seres humanos (moradia, saúde, educação, lazer, emprego). Nem todos ganharam o bombom. Alguns que não ganharam começaram a perguntar o motivo, outros reclamaram que receberam apenas um e alguns falaram que queriam receber mais. Aos poucos perceberam a descrição dos bombons e questionaram a razão de nem todos receberem de forma igual.
Depois da distribuição feita de maneira desigual para os alunos, foi orientado para que buscassem conexões entre a desigualdade na entrega dos direitos (bombons) e a forma como a nossa sociedade garante direitos para os cidadãos. Assim, após alguns diálogos, concluíram que a distribuição de direitos (bombons) representa a realidade das condições das pessoas dentro da sociedade, a falta de direitos e condições de vida dignas para todos, as injustiças e a desigualdade social existentes.
Em seguida, foram questionados como poderiam resolver esta situação e o que eles poderiam fazer para que todos tivessem direitos (bombons). Nesse momento deixamos acontecer um debate entre os estudantes, para que cada um conseguisse opinar e construir a resolução do problema vivenciado. No final, concluíram que para reduzir a desigualdade vivenciada por eles deveriam fazer uma ação coletiva, em que foi sugerido que repartissem de maneira igual todos os direitos (bombons), posteriormente todos comeram os bombons e entenderam a importância da união dos sujeitos.
A terceira aula foi iniciada rememorando o que foi proposto nas aulas anteriores para a introdução do tema. O conteúdo foi exposto por meio de slide, textos, fotos e charges. De início foi apresentado os principais conceitos de movimentos sociais e suas definições. Compreendeu-se que são movimentos de ação coletiva, como a dinâmica dos bombons, e que têm como objetivo mudar ou manter uma situação, que podem ser locais, regionais, nacionais e internacionais, que existem movimentos sociais de causas básicas e de identidade, sempre apresentando exemplos de movimentos e mostrando fotos para uma maior atenção dos alunos.
Na quarta aula relembramos os tópicos debatidos e foram listados e apresentados os principais movimentos sociais contemporâneos, dando ênfase para que os estudantes assimilassem o seu cotidiano. Em sequência debateu-se o Movimento Feminista, Movimento Ambiental, Movimento LGBT e o Movimento Sem Terra (MST). Os alunos citaram uma ONG chamada “Quatro Patas” e perguntaram se poderia ser considerado um movimento ambiental já que lida com os animais. Também citaram alguns movimentos sazonais que ocorreram em Naviraí, principalmente na questão da política.
Na aula seguinte, os estudantes foram provocados para a elaboração e apresentação de um seminário. Dividiram-se em grupos e cada um escolheu um movimento social da sua preferência, juntamente com uma lista de critérios e metodologia que tornasse os alunos pesquisadores de seus respectivos temas. Os bolsistas PIBID tiveram um papel importante nessas pesquisas, pois auxiliaram todos os grupos, tirando dúvidas e também explicando o que sabíamos sobre os movimentos escolhidos.
A quinta aula foi reservada para a produção de um texto crítico e individual, sobre os movimentos sociais com base no que foi discutido em sala. Esse texto serviu para avaliarmos o que os alunos compreenderam sobre os movimentos, percebemos que há uma falta de hábito de leitura e isso prejudica muito a escrita dos discentes, muitos deles têm dificuldade de colocar a própria opinião no papel. No entanto, foi possível elaborar falas muito interessantes:
“LGBT é um movimento que luta pelos direito de “amar”, de amar uma pessoa que é do mesmo sexo, que luta todos os dias contra a violência verbal, psicológica e muitas vezes física…o respeito é o mínimo que a sociedade deve oferecer.” (C.H.)
“O movimento social é importante, pois se muitas pessoas se reunirem para sair nas ruas serão ouvidas e irão conseguir os direitos nas quais lutaram tanto.” (C.D.)
“Todos os direitos que temos hoje, foram por conta de pessoas que no passado lutaram e colocaram a “cara a tapa” para conseguirem o que eram delas por direito. E ainda tem muita coisa para ser conquistada e lutada para um futuro melhor.” (L.S.)
Na duas últimas aulas os estudantes apresentaram os seminários. O primeiro grupo falou sobre o Movimento LGBT, eles trouxeram a origem do movimento e suas principais reivindicações, e também um vídeo “Vídeo faz você sentir na pele o preconceito contra LGBT”, que mostra as dificuldades que um garoto homossexual sofre durante toda a vida. O grupo também colocou cartazes na sala contra a homofobia.
O segundo grupo falou a respeito do Movimento Hippie. As alunas vieram vestidas com roupas que simbolizam o movimento. Como o primeiro grupo, eles também demonstraram estar bem empenhados na proposta do trabalho, fizeram slides com as características do movimento e trouxeram a filosofia dos Hippies.
O terceiro grupo, formado por apenas dois alunos, um negro e um indígena, escolheu o tema Movimento Negro. Trouxeram um vídeo “racismo no futebol ● #diganãoaoracismo ● #respect”, que fala sobre o racismo no futebol, e apresentaram a trajetória do movimento negro no Brasil. No final da apresentação os dois falaram que já sofreram preconceito por causa de suas raças e que por isso escolheram esse movimento.
O quarto grupo articulou sobre a Marcha das Vadias, que é um segmento dentro do Movimento Feminista, abordaram toda a história, principais características e a importância do movimento, e nos slides colocaram fotos do movimento.
O último grupo que se apresentou falou sobre a Marcha da Maconha, que faz parte do movimento que luta pela legalização do consumo da maconha, identificaram os principais pontos do movimento e no final trouxeram um vídeo “Marcha da Maconha Rio de Janeiro 2016” e falaram se eram a favor ou não da legalização.
Para finalizar a sequência, foi realizada uma roda de conversa e debates, buscando sintetizar as dicussões e as ideias que foram construídas ao longo das aulas.
Avaliação da sequência didática
Conforme apresentamos anteriormente, o objetivo foi estimular os alunos a refletirem a importância dos movimentos sociais para a vida das pessoas, de modo a desnaturalizar as ideias que temos acerca assunto.
As atividades propostas conseguiram instigar os estudantes e possibilitar neles a construção de uma visão diferente do senso comum, relacionando o papel dos movimentos sociais com o cotidiano em que vivem.
Durante todo o bimestre os alunos tiveram a oportunidade de estar sempre pesquisando sobre o tema e tirando suas dúvidas com os pibidianos. A forma como a sequência foi aplicada, começando com a música e depois a dinâmica, também atraiu a atenção, pois foge do modelo de aula somente expositiva.
Ao final das aulas podemos concluir que a aplicação da sequência foi bem-sucedida. Foi possível identificar uma mudança na opinião dos alunos, construindo uma perspectiva bastante positiva acerca do papel histórico e prático dos movimentos sociais.
Avaliação do impacto da atividade na formação inicial docente
O ato de educar não está relacionado somente à transmissão de extensos conteúdos, mas sim da relação de troca de conhecimentos entre o educando e o educador. Esse é o ponto essencial da nossa experiência como bolsistas de iniciação à docência.
A aproximação dos alunos no ambiente escolar foi uma experiência muito positiva. O processo de observação, execução e avaliação da sequência didática, somado às discussões teóricas do grupo PIBID, contribuiu para nossa formação, dando-nos autonomia na transformação da prática docente com o compromisso de desenvolver no exercício de professor um posicionamento diferenciado.
Assim, em um país como o Brasil, com tanta desvalorização do profissional professor e da educação como um todo, ser professor é acreditar que o esforço vale a pena. Transformar essa realidade por meio da sala de aula é algo necessário. Nesse sentido, podemos destacar a importância e a necessidade do PIBID como ferramenta essencial para a formação do futuro educador.
Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Orientações curriculares para o ensino médio – Ciências Humanas e suas tecnologias. Secretaria de Educação Básica. v.3, Brasília, 2006.
FRAGA, Alexandre Barbosa, LAGE, Giselle Carino. Tornando os alunos pesquisadores: o recurso da pesquisa nas aulas de Sociologia. In: HANDFAS, Anitta; MAÇAIRA, Julia Polessa (orgs.). Dilemas e perspectivas da Sociologia na educação básica. Rio de Janeiro: E-papers, 2012.
FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. 17.ed, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
GOHN, Maria da Glória. Movimentos sociais na contemporaneidade. v. 16 n. 47 maio-ago. 2011 Revista Brasileira de Educação Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v16n47/v16n47a05.pdf > Acesso em: 07/10/2017
MINISTERIO DA EDUCAÇÃO. Lei 11.684 de 2008. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br > Acesso em: 05/10/2017.
SILVA, Afrânio.et al. Sociologia em movimento. São Paulo: Moderna, 2013.
TOMAZI, Nelson Dácio. Sociologia para o ensino médio. São Paulo: Atual, 2017.
[1] Discente do Curso de Licenciatura em Ciências Sociais – UFMS/CPNV. Bolsista de Iniciação à Docência – PIBID/ CAPES.
[2] Discente do Curso de Licenciatura em Ciências Sociais – UFMS/CPNV. Bolsista de Iniciação à Docência – PIBID/ CAPES.
[3] Discente do Curso de Licenciatura em Ciências Sociais – UFMS/CPNV. Bolsista de Iniciação à Docência – PIBID/ CAPES.
[4] Professor da UFMS/CPNV. Coordenador de Área do PIBID/Capes.
