SEMEANDO O CONHECIMENTO DE MUNDO NA EDUCAÇÃO INFANTIL: O PLANTIO DE UMA HORTA COMO PROJETO DE ENSINO DO PIBID/PEDAGOGIA
SILVA, F. L.
SILVA, A. F. F.
ARAUJO, G. M.
NOGUEIRA, I.S.N.
FREITAS, F.S.
Palavras-chave
Educação Infantil, Conhecimento de Mundo, Seres Vivos, Horta.
Introdução
Tratar de questões de sustentabilidade, meio ambiente e uma alimentação saudável com o ser humano é de uma preciosidade que permite com que o mesmo consiga levar essas questões consigo em seu dia a dia. A Educação Infantil, período de 0 a 6 anos é o momento mais oportuno que temos para conseguir formar um cidadão que consiga captar essas mensagens e fazer delas sua rotina de sua vida.
Nesse período conhecido como o de formação do indivíduo é essencial introduzir questões relacionadas a humanidade, meio ambiente, altruísmo, educação e entre tantos outros aspectos que são capazes de formar o caráter de um ser humano integro e preocupado com o mundo que o rodeia.
Essas questões devem não só ser tratadas pelos Professores da Educação Infantil e da Escola, mas principalmente pela família do estudante que é o grupo social com o qual o mesmo tem maior contato e passa maior tempo de sua vida. A família tem papel imprescindível na construção de um indivíduo que se preocupe com o outro, com a natureza e com a sua alimentação e é ela que conseguirá transformar essas ideologias em atitudes práticas a partir do momento em que compreender que ela também é responsável pela educação informal da criança.
Justificativa
A preocupação com o meio ambiente é cada vez mais evidente em nossa sociedade, e a mesma deve estar presente nos planejamentos dos professores da Educação Básica, desde a Educação Infantil. Essa fase é um importante momento na formação de caráter do indivíduo, é a primeira etapa da educação básica que visa atender crianças de 0 a 6 anos de idade tendo como finalidade o desenvolvimento integral das crianças em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade (BRASIL, 1996, art.29).
O atendimento em creches e pré-escolas vai se firmar como um direito social das crianças a partir da Constituição de 1988, com o reconhecimento da Educação Infantil como dever do Estado com a Educação. Essa conquista teve ampla participação dos movimentos comunitários, dos movimentos de mulheres, dos movimentos de trabalhadores, dos movimentos de redemocratização do país, além, evidentemente, das lutas dos próprios profissionais da educação (BRASIL, 2010).
O campo da Educação Infantil vive um intenso processo de revisão de concepções sobre educação de crianças em espaços coletivos, e de seleção e fortalecimento de práticas pedagógicas mediadoras de aprendizagens e do desenvolvimento das crianças. Em especial, têm se mostrado prioritárias as discussões sobre como orientar o trabalho junto às crianças de até três anos em creches e como assegurar práticas junto às crianças de quatro e cinco anos que prevejam formas de garantir a continuidade no processo de aprendizagem e desenvolvimento das crianças, sem antecipação de conteúdos que serão trabalhados no Ensino Fundamental (BRASIL, 2010 p. 07).
A criança, principal sujeito da educação deve ser considerada um sujeito histórico e de direitos que, nas interações, relações e práticas cotidianas que é capaz de vivenciar, constrói sua identidade pessoal e coletiva por meio de brincadeiras, imaginação, fantasia, desejos, aprendizado, observação, experimentação, narração, questionamento e construção dos seus sentidos sobre a natureza e a sociedade, produzindo cultura (BRASIL, 2010).
A partir desse conceito a estruturação da educação infantil deve conter em sua proposta pedagógica os princípios éticos de autonomia, solidariedade, respeito ao bem comum, ao meio ambiente e as diferenças de identidade e cultura além dos princípios políticos dos direitos de cidadania, do exercício da criticidade e do respeito à ordem democrática e os conceitos estéticos da sensibilidade, da criatividade, da ludicidade e da liberdade de expressão nas diferentes manifestações artísticas e culturais (BRASIL, 2010).
Visando a formação de um indivíduo social preocupado com as condições ambientais do meio em que vive, foi elaborado um projeto de intervenção com o intuito de proporcionar uma vivência concreta e prazerosa do estudo das plantas: a observação científica do seu crescimento, de suas partes, das variedades de frutas e hortaliças, bem como noções de plantio, sustentabilidade e preservação da natureza, além de incentivar o hábito de uma alimentação saudável nas crianças da Educação Infantil. Essa adição de conhecimento no educando o permitirá identificar os seres vivos, perceber a diversidade de plantas, animais e a interdependência entre os mesmos, contribuindo na integração do ser humano com os demais componentes da natureza melhorando a qualidade de vida.
O livro Boniteza de um Sonho, do Professor Moacir Gadotti, traduz os valores do contato com a natureza de uma forma significativa e poética romantizando essa atividade tão importante para o ser humano: Um pequeno jardim, uma horta, um pedaço de terra, é um microcosmos de todo o mundo natural. Nele encontramos formas de vida, recursos de vida, processos de vida. A partir dele podemos reconceitualizar nosso currículo escolar. Ao construí-lo e cultivá-lo podemos aprender muitas coisas. As crianças o encaram como fonte de tantos mistérios! Ele nos ensina os valores da emocionalidade com a Terra: a vida, a morte, a sobrevivência, os valores da paciência, da perseverança, da criatividade, da adaptação, da transformação, da renovação” (GADOTTI apud FONTE, 2015, pág 02).
Uma atividade dessa plenitude ainda permite que a criança já comece a estudar Ciências ainda no seu período de educação infantil, porém de uma forma prática o que garantirá um maior envolvimento da mesma e uma melhor absorção de conteúdo além de proporcionar uma noção de produção bem diferente daquela que elas aprendem ao acompanhar a mãe na ida ao armazém ou ao supermercado.
A intervenção realizada teve como objetivo, proporcionar às crianças do Pré II A e Pré II B da Escola Municipal Professor Odeir Antônio da Silva, em Três Lagoas, o conhecimento de mundo e da natureza por meio da realização de uma horta na escola. Além de lhes dar a oportunidade de manusear instrumentos que contribuam também com seu desenvolvimento motor, como rastelo, pá e enxada, todos adaptados para seu tamanho e idade, por meio do cultivo do solo. Essa atividade visava também incentivar a autonomia, garantindo a responsabilidade do cuidar e a percepção da horta como uma fonte sustentável de produção de alimentos.
Considerações Finais
A princípio, foi realizada a apresentação dos alimentos que poderiam ser plantados na horta e aqueles que exigissem uma maior área de cultivo como o bananal, por exemplo. Utilizamos a denominação horta para os alimentos que exigissem menos espaço para plantio e fazenda para os que exigem mais espaço, com a finalidade didática de que elas pudessem distinguir a diferença entre ambos. Foi realizada a impressão de imagens de alguns alimentos que poderiam ser encontrados no Brasil com mais facilidade, além de uma réplica do mapa do país para que as crianças pudessem associar o local em que os alimentos poderiam se desenvolver melhor durante o seu período de crescimento, devido às características climáticas da região. Demos preferência a alimentos que as crianças poderiam ter mais contato em seu dia a dia, explicando onde cada um se encaixava na hora de ser plantado (horta ou fazenda).
Algumas crianças possuíam um maior contato com a natureza e já tinham certo conhecimento de alguns alimentos como, por exemplo, a Natália[1], que conseguia identificar até a região de alguns frutos como o Açaí, por já ter conhecido a região Nordeste com os seus pais. O aluno Marcos William[2] também apresentou um conhecimento mais avançado em relação aos seus colegas e conseguiu associar as imagens dos frutos com as regiões em que eram encontrados no mapa do Brasil muito facilmente. No preparo da salada de frutas, todos os alunos participaram do processo, ajudando a descascar os alimentos com instrumentos que evitassem possíveis acidentes e demonstram sentir-se uteis por estarem preparando o próprio alimento.
O contato das crianças com o solo fez toda a diferença. Na hora de conhecer a muda de alface, ficaram fascinadas por descobrir que algo tão pequeno poderia se tornar uma verdura tão grande e vistosa. Contamos a elas que a Alface tem várias cores e muitas espécies além daquelas que utilizamos com maior frequência em nossa alimentação. A importância da Horta na produção de alimentos mais saudáveis também chamou muito a atenção, principalmente pelo fato de que você mesmo é capaz de produzir aquilo que vai comer. Elas se comprometeram prontamente a cuidar da horta e a não deixar a Professora esquecer-se de regar a mesma duas vezes ao dia. Quando utilizamos as cascas dos alimentos da salada de fruta para fertilizar o solo, percebemos nelas certa curiosidade em relação ao que podiam utilizar para deixar o solo mais saudável e uma fascinação imensa por descobrir que muitas vezes aquilo que não utilizamos para consumo pode servir para ajudar na melhoria de qualidade de uma plantação. O contato com as minhocas encontradas na hora do plantio as encheu de curiosidade, fazendo perguntas sobre o que a minhoca fazia ali, o que ela comia, quem é macho e quem é fêmea, entre tantas outras coisas que ocasionaram adição de conhecimento para além do que havia sido planejado. Em nossas visitas semanais de manutenção, a participação dos alunos era ativa e dividíamos as atividades de forma que todos pudessem colaborar, pois se alguém ficasse sem ajudar no processo, poderia ocasionar discussões e brigas.
Desenvolvemos o projeto entre os meses de junho e julho, época de inverno no hemisfério sul do planeta, o que acabou por retardar um pouco o crescimento da alface. Na data em que havíamos proposto para encerrar o projeto, a alface ainda não tinha alcançado o seu pleno desenvolvimento e explicamos isso às crianças, utilizando uma simbologia de que a mudinha da alface também fica com preguiça no inverno, principalmente de crescer. Compramos então uma Alface em uma quitanda para que pudessem ver como a alface ficaria ao atingir seu período completo de desenvolvimento, mas mesmo assim colhemos alguns pés da horta para a preparação dos lanches naturais no encerramento do projeto, pois as crianças entrariam em férias e não conseguiriam voltar a tempo de colher. O jogo de Pareamento de Letras também foi muito gratificante, e apesar das dificuldades de alguns para encontrar a ficha com a letra inicial que carregavam em sua mão, todos conseguiram concluir a brincadeira com a ajuda dos colegas que estavam ansiosos em poder ajudar um companheiro.
Conclusão
O nível de interesse que as crianças apresentaram por aprender coisas novas e a curiosidade em seus olhos, demonstrou o quanto a atividade foi envolvente e importante para a aprendizagem e desenvolvimento das crianças. O projeto realizado a partir da horta serviu como forma de possibilitar o entendimento do processo e cuidado da produção de alimentos sustentáveis e saudáveis, proporcionando um contato maior com a natureza, permitindo a adição de conhecimentos que não seriam jamais mencionados em sala de aula e ainda dando às crianças a oportunidade de manusearem a terra, as mudas e os instrumentos, além de se sentirem úteis por terem trabalhado para chegar aos resultados esperados.
Apesar do clima não ter colaborado para o desenvolvimento da alface, quando voltaram do recesso de meio do ano a verdura estava pronta para a colheita e bonita como aquelas que, segundo as crianças, “encontramos na feira dos supermercados”. É importante dar continuidade ao Projeto com cultivo de alimentos que demonstrou grande eficiência para o desenvolvimento das crianças e ampliação de seu conhecimento de mundo, da natureza, bem como para a interação entre elas e o desenvolvimento da oralidade e da coordenação motora.
Referências Bibliográficas
BRASIL. Lei nº 9394 de 20 de Dezembro de 1996. Brasília, 1996. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9394.htm>. Acesso em: 10 de jul. de 2017.
BRASIL. Diretrizes Curriculares para a Educação Infantil. Brasília, 2010. Disponível em: < http://ndi.ufsc.br/files/2012/02/Diretrizes-Curriculares-para-a-E-I.pdf>. Acesso em: 15 de set. de 2017.
GADOTTI, M.; BONITEZA DE UM SONHO: Ensinar-e-aprender com sentido. Rio Grande do Sul, 2007. Disponível em: <http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/boniteza.pdf>. Acesso em: 01 de ago. de 2017.
[1] Nome fictício
[2] Nome fictício
